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terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Uma canção...


...talvez haja um amor me inventando,
mas tão vago, nem roça 
as beiras da minha praia: concha breve
e encolhida, não vou desenrolar o meu abraço.
Quando achei que era tempo, não era:
talvez este ondular entre ramos
venha de alguma alheia primavera.


Lya Luft

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Tua Dádiva

Acolhe-me em teu abraço,
Com teu olhar me afirma:
aquele espaço a teu lado
é o porto da minha viagem,
meu lado de rio, minha margem.

Abriga-me no teu corpo
Para que o meu se desdobre
Em onda de mar ou concha.
Aceita-me e me recria
Como nem eu me conheço:
Em ti parece que chego
Como uma coisa concreta,
Algo que avança e se adianta,
E só assim se desdobra,
Pois antes era miragem.

Recebe-me em duas partes:
Aquela que o mundo avista,
E a outra, a verdadeira,
Chão da tua sombra que passa,
E da tua luz que se planta

Para não dizer adeus / Lya Luft

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Indagações

A vida inteira busquei
Explicações e deciframentos:
Encontrei silêncio e segredo,
às vezes o conforto de um ombro,
outras vezes dor. 

No último lapso
de um tempo sem limites
- embora a gente o queira compor em fragmentos -,
abriram-se as águas
e entrei onde sempre estivera.

Tudo compreendido
e absolvido,
absorta eu me tornei
luz sem sombra:
assombro.

Lya Luft

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Espero você...

Vem sem receio: eu te recebo

Como um dom dos deuses do deserto

Que decretaram minha trégua, e permitiram

Que o mel de teus olhos me invadisse.

 
Quero que o meu amor te faça livre,

Que meus dedos não te prendam

Mas contornem teu raro perfil

Como lábios tocam um anel sagrado.

 
Quero que o meu amor te seja enfeite

E conforto, porto de partida para a fundação

Do teu reino, em que a sombra

Seja abrigo e ilha


Quero que o meu amor te seja leve

Como se dançasse numa praia uma menina.

(Lya Luft)

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Escolha

Apesar do medo
escolho a ousadia.
Ao conforto das algemas, prefiro
a dura liberdade.
Vôo com meu par de asas tortas,
sem o tédio da comprovação.

Opto pela loucura, com um grão
de realidade:
meu ímpeto explode o ponto,
arqueia a linha, traça contornos
para os romper.

Desculpem, mas devo dizer:

eu

quero o delírio.

 - Lya Luft -


Foto:  António J.S.